Conjunção Jupiter Saturno Dez 2020

Conjunção Jupiter Saturno, ciclo de 20 anos.

Na astrologia da Idade Média e da Renascença, a conjunção Júpiter-Saturno sempre é considerada prenúncio de uma mudança no governo - a morte de um rei e um interregno de caos, e depois o surgimento de um novo rei. Sempre havia previsões de grandes dificuldades no ambiente, mas o tema principal é a imagem do velho rei morrendo e do novo rei nascendo. Vocês podem seguir todo o caminho de retorno até os mitos gregos, que vão encontrar o mesmo tema. Na Grécia, esses dois deuses eram chamados Cronos e Zeus.
Cronos é o velho rei, o titã terrestre, regente dos deuses. Ele é velho e tem ciúmes do seu trono, e também muito paranóico. Representa a estrutura que existe desde os tempos imemoriais, construída sobre o poder e a agressão. Afinal, ele se torna rei dos Deuses destronando e castrando seu próprio pai, Urano. Um oráculo diz a Cronos que um dia um de seus filhos, por sua vez, vai destroná-lo. Para evitar que a profecia se realize e ele perca o poder, Cronos devora os seus próprios filhos. O único problema é que um deles foge. É Zeus. Zeus evita ser devorado com a ajuda da mãe, Rea, e se esconde numa caverna. Mais uma vez aparece a imagem da espera, da mumificação anterior à mudança. Rea dá a Cronos uma pedra embrulhada num lençol de criança para que ele coma, no lugar de Zeus. Ele fica sonolento e entorpecido pela refeição que acabou de devorar, e não percebe a diferença entre uma criança e uma pedra. Com o correr do tempo, que em termos de deuses logicamente não é o mesmo nosso, ele vomita tudo, porque a pedra está lhe causando indigestão. Exatamente nesse momento de vulnerabilidade, Zeus surge de sua caverna e lidera uma rebelião. Destrona o pai, banindo-o para o mundo subterrâneo, e se torna o rei dos deuses. De modo que, mais uma vez, aparece a imagem de uma coisa velha que morre, e um período provisório de caos e confusão com a aparente supremacia do velho princípio que parece ter sido bem sucedido ao reprimir qualquer vida nova que possa tentar surgir.
Se fizer a tradução para o que se dá dentro de uma pessoa, é preciso considerar o que vai acontecer quando se remover aquilo que sempre constituiu o princípio restritivo e regulador. Depressão, desilusão, estados emocionais voláteis, confusão, são bem típicos. É provável que surjam perguntas do tipo: "Quem sou? O que estou fazendo? O que quero, de verdade? Para onde estou indo?" juntamente com sentimentos de desespero. Há muito pânico em nível individual e coletivo, quando o velho morre. Quando morre o governante de um país, as pessoas ficam imaginando o que será do país. O sentimento predominante é o pânico. Quem vai proporcionar a estrutura e o senso de segurança? Mesmo que o governante seja odiado, a reação é a mesma.
Assim, morre um velho princípio regente. Mas o que é a coisa nova que surge? Ainda não falei muito de Zeus. Creio que uma das figuras citadas por Jung relacionadas com o jovem Zeus é a do puer aeternus. Significa o "eterno jovem". É a figura da potencialidade. Também representa a aspiração, e já o encontramos muitas vezes, durante este seminário, na forma do deus jovem e bonito. Assim, o puer herda o trono depois do interregno, mas ele ainda não se submeteu a uma prova e, consequentemente, ainda não é muito digno de confiança. Nos mitos, muitas vezes o puer é ferido, aleijado ou colocado em perigo na infância, de modo que já começa com uma desvantagem, que o faz parecer fraco. Tudo que ele tem é a sua esperança e o seu otimismo. Assim, os sentimentos de otimismo e de novas possibilidades são acompanhados por um grande medo porque, num reino em que o rei velho morre e o jovem rei assume o trono, todos estão assustados. Pode ser que ele seja fraco e ineficaz. Pode ser que não execute o que dele se espera. Dessa forma, o evento é rodeado de terrível ambivalência. Junto com a esperança de que finalmente as coisas vão melhorar e se tornar mais criativas, existe também o medo de que o novo potencial seja podado antes de ter uma oportunidade, ou que acabe sendo uma decepção. Essa ambivalência é característica do estado interior das pessoas que passam por esse trânsito.
Júpiter e Saturno formam um par no mapa de nascimento. Evidentemente, dão margem a muitas interpretações, mas não acredito que qualquer uma delas seja a única correta. Uma das formas de visualizá-los é ver Júpiter como a cenoura que balança na frente do burro, e Saturno como o chicote que vem de trás. Ambos os planetas dizem respeito ao crescimento, ao movimento e ao sentido. Não são completamente pessoais nem completamente transpessoais. São a linha fronteiriça entre os planetas interiores, que associamos às nossas necessidades individuais, e os planetas exteriores, que tratam dos movimentos profundos da coletividade. Júpiter e Saturno alinhavam a nossa filosofia de vida pessoal, a nossa visão do mundo. O reino da filosofia é a fronteira entre o pessoal e o transpessoal. Júpiter e Saturno descrevem as nossas visões da vida e o tipo de estruturas éticas em que baseamos nossas decisões.
De qualquer forma, para esses dois planetas o sentido da vida é muito diferente. Para Saturno, só se pode achar sentido através do trabalho, do sofrimento, da labuta pesada, da disciplina, do ascetismo. O caminho de Saturno é a estrada escura, introspectiva, amarga, através da experiência, e a realização só chega na velhice, quando se tem experiência suficiente para dizer: "Sei que isso é verdade, porque já passei por isso." A voz de Júpiter é muito diferente. Ele diz: "Sei que isso é verdadeiro, simplesmente porque sei." Júpiter tem vislumbres da verdade. Não precisa dar o sangue para descobrir. Na verdade, prefere evitar as experiências duras. Encontra seu significado através da intuição, da meditação, do exame de horóscopos, da leitura inspiradora. É atraído pela religião e pelos sistemas filosóficos que "soam verdadeiros" para ele. Júpiter não gosta de confundir sua verdade com fatos, diferentemente de Saturno, que não gosta de confundir seus fatos com a verdade
Assim, examine sempre o chamado regente do mapa, seu signo e sua Casa. A posição nas Casas invariavelmente mostra um campo de experiência onde se manifesta muito da sua energia vital e do seu esforço. Também, ao citar os aspectos com o Ascendente, eu deveria enfatizar que uma conjunção com o Ascendente ou com o Descendente é um aspecto tremendamente poderoso. Em muitos casos, esse planeta pode ser o mais poderoso do mapa. Algumas vezes, um planeta em aspecto próximo com o Ascendente domina toda a vida.
(Liz Greene e Stephen Arroyo - Livro Júpiter e Saturno).